O Futuro (?) de uma (nova) ilusão
Brasil, Pandemia do
Novo Coronavírus, dia 119
Caro Doutor Freud,
Parece que lhe escrevi há vários
anos, mas na verdade passaram-se dois meses inteiros; deveria dizer só, mas não
tenho essa certeza de que foram dias breves. Foram longos dias, que se
alternavam em dias grandes e dias intermináveis, porém passaram. Mas o mal-estar
continua aqui. Talvez, professor, eu já devesse saber, ou melhor, ter aceitado
de que sempre haverá mal-estar, sempre haverá isso que ronda como um animal que
sabe da floresta, mas que pouco sabe o que fazer. E parece que há muito a se
fazer e pouco sendo feito.
É melhor não me delongar e ir
direto ao ponto. Ainda, caro doutor, estamos vivendo uma pandemia de um vírus
invisível e poderoso e parece que cada vez que damos um passo pra frente,
precisamos dar três para trás para conseguir lidar com ele. O vírus mata,
entorpece, paralisa, faz perder o ar e a palavra e mesmo assim, alguns, não são
afetados ou não querem se afetar. Me pergunto, como foi lidar com a pandemia de
Gripe Espanhola? Foi diferente do que vivemos hoje, professor?
Em seu texto de 1927, o senhor nos alertava sobre os riscos que nossa sociedade corria ao continuar perpetuando as ideias religiosas, isso ainda é feito, Freud, e parece que a cada dia com mais afinco. Despreza-se o saber científico e se crê que o todo poderoso senhor Deus irá nos livrar do vírus. Entendo que se apoiar nessas ideias é reconfortante aos sujeitos, como o senhor mesmo apontou em seu texto, mas acredito que desacreditar na ciência não é sem consequências. E mesmo com consequências graves, muitas vezes a ciência é deixada de lado em prol de um discurso fundamentalista e ideológico que só faz crescer mais e mais a incerteza sobre o futuro. E não é só no campo da saúde que no Brasil de 2020 isso acontece, na educação e em outros campos do conhecimento vemos retrocessos e mais retrocessos todos os dias, serem substituídos pelo discurso de um fundamentalismo barato e sem propósito, já que a maior ideia religiosa é o amor universal, que pouco vemos, pouco sentimos.
Aqui no Brasil, houve um compositor que, em uma de suas canções, disse que “ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais”, Belchior, na mesma canção, diz que nossos “ídolos ainda são os mesmos”, parece que o futuro repete o passado dia após dia. Essa música foi escrita há anos, mas se atualiza todo dia, ainda depositamos a nossa esperança e a nossa fé em mitos, em heróis! Ainda espero o dia em que possamos ser os heróis de nossas próprias histórias, singulares, mas que sustentam o próprio desejo, não sem consequências, como Antígona fez.
Ainda espero, caro Freud, que possamos dar à ciência o seu verdadeiro valor e lugar. Acredito que foi isso que o senhor tentou fazer com aquele texto de 1927. Aquele grupo que comentei na última carta, ainda se reúne as quartas-feiras para reler seus textos e seguir, acredito que ainda é possível ir, assim, junto. Vivemos tempos em que esse junto só é possível longe, Freud, só é possível através da mediação de um Outro; a tecnologia se faz um grande Outro, não todo, para que possamos continuar.
Espero que na minha próxima carta
o valor da transitoriedade dos dias retorne e, assim, seja possível dizer de
algo novo, algo mais calmo. Por aqui seguimos, Freud, ao futuro (?) de uma
(nova) ilusão.
Com afeto,
P.

Que sensibilidade!!! Belíssimas palavras...
ResponderExcluirMeu amigo Pedro...😍🥰🥰🥰😘