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O Futuro (?) de uma (nova) ilusão

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Brasil, Pandemia do Novo Coronavírus, dia 119     Caro Doutor Freud,   Parece que lhe escrevi há vários anos, mas na verdade passaram-se dois meses inteiros; deveria dizer só, mas não tenho essa certeza de que foram dias breves. Foram longos dias, que se alternavam em dias grandes e dias intermináveis, porém passaram. Mas o mal-estar continua aqui. Talvez, professor, eu já devesse saber, ou melhor, ter aceitado de que sempre haverá mal-estar, sempre haverá isso que ronda como um animal que sabe da floresta, mas que pouco sabe o que fazer. E parece que há muito a se fazer e pouco sendo feito. É melhor não me delongar e ir direto ao ponto. Ainda, caro doutor, estamos vivendo uma pandemia de um vírus invisível e poderoso e parece que cada vez que damos um passo pra frente, precisamos dar três para trás para conseguir lidar com ele. O vírus mata, entorpece, paralisa, faz perder o ar e a palavra e mesmo assim, alguns, não são afetados ou não querem se afetar. Me pe...

O amor não nos dá garantias

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     Sim, ele não nos garante nada. Amar não é sinônimo de ser amado, mas senão o desejo de ser amado. “Dar aquilo que não se tem, a quem não quer”, já dizia Lacan [1] . Freud [2] nos adverte que uma das fontes do mal estar são as relações e aqui, talvez, amar seja isso que é difícil: sustentar a diferença, abrir mão, perder. Amor não é completude, longe disso. Sinto muito, Fábio Jr, mas não há uma metade da laranja que vá completar a outra, um mais um não faz um, e sim, dois (ainda bem!). Contrariando a maioria das histórias da minha infância, o amor não garante um final feliz, ainda mais porque não se para de viver até morrer, não se para de escrever até o suspiro final e aí, quem sabe, ter um final feliz. Pode ser que o amor seja entrega, renúncia, privação, o cristianismo já se encarregou de pintar essa versão para nós. E de uma coisa sabemos, não há amor sem dor. Amar e sofrer andam lado a lado, juntinhos. Entretanto, Freud [3] , lá em 1914, já nos lem...

Carta ao Mr. Brightside

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Querido Amigo, Já faz bastante tempo que não te escrevo, mas garanto que muitas coisas mudaram, outras continuam as mesmas... estamos perto do inverno de novo, o frio já chega de mansinho e aos poucos vai tomando seu espaço no meio da vida atribulada que a gente leva. Por falar em vida atribulada, as coisas andam cada vez mais pesadas e estranhas. O Mal-Estar freudiano nunca bateu tanto à nossa porta, nunca foi tão difícil nomeá-lo e, assim, nunca foi tal real. O mundo é assolado pela maior crise em saúde pública do século, há uma pandemia de um novo Coronavírus arruinando o mundo todo, ninguém sabe direito o que fazer, ninguém sabe o que esperar. Alguns dizem que esse vírus nem vivo é, entretanto, tenho a certeza de que ele é: de um real mortífero que nos assusta e nos deixa sem palavras. Essa parte de estar sem palavras talvez seja só para alguns, tem pessoas que usam e abusam dessa palavra... respondem a questões complicadas que não lhes foram perguntadas, tentam reafir...

Um Lugar para o Mal Estar

Caro Dr. Freud,    Meu primeiro encontro com suas descobertas foi há 6 anos uma grande surpresa. Foi em um dia de aula comum que um professor de filosofia do ensino médio me apresentou você. Eu passava por um período de desilusão intensa e encontrei em suas ideias um lugar possível para abrigar o mal estar inexplicável que assolavam meus dias e noites.    Justamente naquele período eu me confrontava com os ideais pelos quais nunca consegui responder e que em um ano anterior havia decidido que não iria mais suportá-los. Eu acreditava, querido Freud, que ao me libertar de tais imperativos seria possível encontrar a famosa felicidade. Naquele momento em que eu conhecia suas ideias pela primeira vez, eu estava numa realidade em que respondia pelas escolhas que havia feito e assim, colhia os efeitos turbulentos em bancá-las. Eu buscava liberdade e felicidade. Contudo, quanto mais me libertava das amarras mais parecia estar me distanciando daquilo que acreditava ser a f...

Do Mal Estar na Civilização ao enigma da torta: a inauguração de um grupo

Pouco depois da virada do ano um convite fez com que janeiro tomasse um novo colorido, o convite de ler a obra freudiana em grupo fez com que se reacendesse algo em mim, algo que, de algum modo, estava quase se apagando. Me fez apostar de novo naquilo que já era a aposta, mas que estava guardado para acontecer no tempo certo.             Juntos escolhemos um texto um tanto quanto peculiar para inaugurarmos o grupo. Não há como negar que o texto O Mal-Estar na Civilização (1930 [1929]) é atual em vista das construções sociais que vivemos. A sensação, muitas vezes, é a de que Freud o escreveu a pouco e que todas as vezes que retornamos a ele o texto é inédito. E inédita é também nossa experiencia em grupo. Somos poucos, mas as vezes parecemos muitos, plurais e singulares ao mesmo tempo. Estamos todos começando nos (nossos) caminhos e escolhemos este para seguirmos juntos, caminhando de pouquinho em pouquinho. E assim fazen...

Faço minha aposta na Psicanálise

Em algum lugar no hemisfério Sul, 02 de março de 2020 Caro Dr. Freud, Me sinto como um de seus bisnetos, nascido anos depois da criação de sua teoria, que muito me afeta, mas que também muito diz sobre quem sou. Poder apostar na psicanálise enquanto causa e também sintoma é o que faz com que a roda da vida por aqui possa girar, e é por isso que venho lhe escrever, mesmo sabendo que o senhor não me pediu resposta ou comentário sobre seu texto, mas a questão é que, depois de ler e reler e ler de novo, eu preciso falar! Muito tempo se passou desde quando um de seus mais célebres textos foi publicado. Em idos do final da década de 1920, grande parte do mundo estava assolado pelo final da Primeira Grande Guerra e da crise de 1929. Em tempos difíceis eu imagino, tempos onde a palavra falhava e era preciso criar estratégias e saídas para o mal estar. E assim surgiu  O Mal-Estar na Civilização , pelo menos foi assim que eu imagino. 90 anos depois da publicação do texto ele co...