Faço minha aposta na Psicanálise


Em algum lugar no hemisfério Sul, 02 de março de 2020

Caro Dr. Freud,

Me sinto como um de seus bisnetos, nascido anos depois da criação de sua teoria, que muito me afeta, mas que também muito diz sobre quem sou. Poder apostar na psicanálise enquanto causa e também sintoma é o que faz com que a roda da vida por aqui possa girar, e é por isso que venho lhe escrever, mesmo sabendo que o senhor não me pediu resposta ou comentário sobre seu texto, mas a questão é que, depois de ler e reler e ler de novo, eu preciso falar!
Muito tempo se passou desde quando um de seus mais célebres textos foi publicado. Em idos do final da década de 1920, grande parte do mundo estava assolado pelo final da Primeira Grande Guerra e da crise de 1929. Em tempos difíceis eu imagino, tempos onde a palavra falhava e era preciso criar estratégias e saídas para o mal estar. E assim surgiu O Mal-Estar na Civilização, pelo menos foi assim que eu imagino.
90 anos depois da publicação do texto ele continua contemporâneo e atual, com a sensação de que o senhor o escreveu aqui no Brasil, no meio da última corrida eleitoral e no meio da crise que o país e, particularmente, eu enfrentava. Foram tempos complicados, caro Freud. Às vezes os dias ainda são difíceis, mas prefiro nomeá-los como dias recheados de mal-estar.
Confesso que em muitos momentos da leitura do texto senti o mal-estar habitando parte de mim, como se estivesse à espreita precisando falar... e a única coisa que poderia fazer era dar ouvidos a ele e escutar o que tinha para dizer. Quando o senhor nos diz que “a vida, tal como a encontramos, é árdua demais para nós, proporciona-nos muitos sofrimentos, decepções e tarefas impossíveis. A fim de suportá-la, não podemos dispensar as medidas paliativas”, me causou certa estranheza. Como se o véu de fantasia que encobria o real da coisa fosse, mesmo que por alguns poucos segundos, retirado e eu precisasse ver aquilo que é indizível.
Em outros momentos ao longo do texto também senti isso. Mas também fui encontrando saída para esse mal-estar, principalmente nos encontros de leitura do texto. Sim, caro dr., anos depois ainda nos reunimos para falar sobre sua obra e fazer com que ela se perpetue no mundo e em nós! Carinhosamente chamamos nosso grupo de ­Quarta com Freud e fazemos desse movimento de leitura e troca, um lugar para que possamos falar e nos escutar e assim ir trilhando um caminho pela psicanálise que só pode ser percorrido junto.
E nesses afetos do grupo vamos construindo nossas discussões. Parece que, para quase todos nós, as medidas paliativas de sua época não dão conta do recado. A religião anda falhando muitas vezes no lugar onde ela precisava fazer a roda girar, ao invés se ser consolo ela tem se tornado, cada vez mais, forma de imposição e coerção de um autoritarismo retrógrado que insiste em espreitar o século XXI.
Construir família, ter um emprego estável e seguro, coisas que, em sua época e talvez na de meus pais, fossem um lugar de suplência e de saída desse mal-estar não surtem tanto efeito. Parece que as coisas hoje são mais possíveis, não que sejam mais fáceis, mas que agora há lugar para desejar e sustentar o desejo sem tantas imposições, ou não!
Ainda é difícil fugir à norma social. Não é fácil. Ainda é preciso defender pontos de vista que pareciam causas ganhas e irrevogáveis, mas não são. E isso de ter tanto para escolher é a ponta do iceberg do mal-estar atual, porque quando se escolhe algo se perde outras coisas, e estamos em uma sociedade neoliberal onde perder é intolerável. Queremos tudo o tempo todo, mas não temos fôlego para quase nada.
A intolerância parece ter se tornado a via régia de nossos dias, tudo o que for diferente é intolerado e ainda assim há muita gente defendendo o contrário disso, mas não é tão diferente de sua época, não é? A estranheza com culturas diferentes que o senhor já dizia permanece por aqui, as vezes bem pior. Vimos pouco depois da publicação de seu texto o nazismo e fascismo explodirem pela Europa e depois no mundo, assistimos as consequências disso e a ressaca que nos atinge ainda em 2020. A sociedade não tolera o diferente, seja ele qual for... e em nome de deus e da família (que ainda prefiro não entrar nisso, caro professor) fazem barbáries.
Entretanto durante a leitura do seu texto fiquei com a “pulga atrás da orelha” sobre o amor. Enfim Freud, ele é possível ou impossível? Os gregos, como o senhor bem sabe, tinham vários nomes para falar de amor e desde sempre falavam sobre o amor para falar de amizade. E você também faz isso. E confesso que aqui eu encontrei certo alívio na sua leitura. Em um dos momentos mais difíceis da minha vida recorri aos meus amigos, que foram ponto de apoio para que fosse possível caminhar.
E, apesar do que está no texto, acredito que o amor ainda é possível. Não com a banalização que se ouve por aí, mas, como propõe (acredito eu) seu filho mais célebre, aquele amor lacaniano que opera com a falta e nela se vê que tem mais, ainda!
Uma analista de meu tempo diz que “viver não tem cura, o amor é paliativo”! Talvez, professor, o amor seja uma saída para o mal-estar. Talvez ele faça com que o resto ganhe sentido. Talvez quando ele falta, seja difícil, seja real... e aprenderemos a operar com esse real. Cabe a cada um de nós encontrar essa saída. Faço minha aposta na psicanálise, sei do valor que ela tem em mim. Antes de me aventurar neste mundo psi fui analisando. Sei do preço que terei de pagar para sustentá-la, mas não é um preço impossível. Também aposto na psicanálise porque, como o senhor mesmo disse, ao falar dela falamos sobre o amor, e que ele seja possível!
Obrigado por ouvir sobre o mal-estar que ronda os dias de agora, não é tão diferente dos que rondavam os dias passados. Tento ouvi-lo quando é possível e quando não é só caminho junto dele. Obrigado por me adotar nessa família, tão diferente e estranha.
Com afeto,
P.



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