Um Lugar para o Mal Estar

Caro Dr. Freud,

   Meu primeiro encontro com suas descobertas foi há 6 anos uma grande surpresa. Foi em um dia de aula comum que um professor de filosofia do ensino médio me apresentou você. Eu passava por um período de desilusão intensa e encontrei em suas ideias um lugar possível para abrigar o mal estar inexplicável que assolavam meus dias e noites.
   Justamente naquele período eu me confrontava com os ideais pelos quais nunca consegui responder e que em um ano anterior havia decidido que não iria mais suportá-los. Eu acreditava, querido Freud, que ao me libertar de tais imperativos seria possível encontrar a famosa felicidade. Naquele momento em que eu conhecia suas ideias pela primeira vez, eu estava numa realidade em que respondia pelas escolhas que havia feito e assim, colhia os efeitos turbulentos em bancá-las. Eu buscava liberdade e felicidade. Contudo, quanto mais me libertava das amarras mais parecia estar me distanciando daquilo que acreditava ser a felicidade, pois acabei rompendo com quase tudo que me parecia ser seguro e estável.  Já se passaram 6 anos e desde então muita coisa mudou. E como! Ainda bem…
   Hoje me encontro com alguns colegas e compartilhamos de um certo mal estar. Nossa primeira leitura juntos foi "O Mal Estar na Civilização" e esta carta foi uma tentativa de dar corpo aos efeitos que ressoam em mim.
     Já fazem 90 anos que você escreveu sobre o mal estar da civilização de sua época, entretanto as coisas parecem sem muitas novidades por aqui. Você consegue ser tão pontual que suas ideias permanecem vívidas em nosso cotidiano.  Nós, seres humanos, ainda buscamos como motivo de nossa existência a famosa felicidade, e digo mais, hoje temos vários objetos que prometem garanti-la!
     Nunca estivemos tão insatisfeitos, e as possibilidades de extrair satisfação das coisas deixou tudo tão superficial que as relações humanas parecem cada vez mais uma relação entre coisas. A evolução cultural que você tanto discorreu em seu texto está submersa em uma configuração capitalista na qual as relações de trabalho se esforçam por domar os instintos humanos a fim de um maior aproveitamento para a força de produção.
Uma produção exaustiva de felicidade-mercadoria.
    Hoje estamos na era da imagem. A felicidade aparece estampada nas telas e nós sorrimos para as fotografias! O mal estar não tem muito espaço por aqui. Nos cumprimentamos perguntando se está tudo bem, e nunca está tudo completamente bem, mas dizemos que sim. Afinal, uma pergunta desta, tão automática, geralmente não se escuta sua resposta.
    O que percebo hoje, querido Freud, é  que as famosas religiões, que segundo seu texto, podem substituir a ciência e a arte na busca pela felicidade, tem perdido suas forças institucionais. Os pequenos falsos heróis têm sido exaltados e colocados em pedestais. Eles prometem tantas coisas e são tantos os sacrifícios para se obter conquistas que não deixa de ser uma certa religiosidade, pois possuem muitos seguidores fiéis. Bom, cada um se agarra como e ao que pode, não é mesmo?
    A maioria dos brasileiros não reconhece valor nem na arte nem na ciência, e hoje eles possuem como representante um homem abominável e pobre de espírito que vem arrastando multidões em nome de um certo Deus e a favor de muitos artifícios da agressividade.
    É impossível para mim evitar as lágrimas ao lhe escrever caro Freud, as coisas estão difíceis por aqui, e o sentimento de impotência é grande. Mas nós resistimos e seguimos! Ainda com tanto a aprender com seus escritos que permanecem nos convocando a um movimento de desilusão. Faço da esperança uma ação de meu desejo. E este mal estar, persistente, busco transformá-lo em motor para não recuar frente ao inédito da vida.

Um terno abraço de sua aprendiz, G.

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