Carta ao Mr. Brightside


Querido Amigo,

Já faz bastante tempo que não te escrevo, mas garanto que muitas coisas mudaram, outras continuam as mesmas... estamos perto do inverno de novo, o frio já chega de mansinho e aos poucos vai tomando seu espaço no meio da vida atribulada que a gente leva. Por falar em vida atribulada, as coisas andam cada vez mais pesadas e estranhas. O Mal-Estar freudiano nunca bateu tanto à nossa porta, nunca foi tão difícil nomeá-lo e, assim, nunca foi tal real.
O mundo é assolado pela maior crise em saúde pública do século, há uma pandemia de um novo Coronavírus arruinando o mundo todo, ninguém sabe direito o que fazer, ninguém sabe o que esperar. Alguns dizem que esse vírus nem vivo é, entretanto, tenho a certeza de que ele é: de um real mortífero que nos assusta e nos deixa sem palavras. Essa parte de estar sem palavras talvez seja só para alguns, tem pessoas que usam e abusam dessa palavra... respondem a questões complicadas que não lhes foram perguntadas, tentam reafirma saber que não se aplica ante a esse real, parece que nesse tempo (não só da pandemia, mas o que vivemos) todo mundo precisa ser especialista em alguma coisa e precisam falar disso aos quatro ventos.
Hoje faz quarenta dias que estou em distanciamento social, até agora, única forma eficiente de conter a propagação do vírus. Esses dias têm sido estranhos e ao mesmo tempo familiares, se é que uma coisa se difere muito da outra. Os dias parecem uma infinidade de domingos, parece que vivo em um looping eterno de domingos, mas sem Fantástico ou nada de fantástico. Só de fantasmático mesmo, sem isso não sei se poderia ser possível.
Os dias parecem uma eterna quaresma, só que uma quaresma sem páscoa, sem passagem, sem triunfo. Pareço bem pessimista falando assim, mas os dias têm sido assim. Sei que ainda há uma infinidade de coisas que podem e até devem ser feitas, mas no tempo em que forem possíveis, quando houver páscoa!
Enquanto isso sigo com as amarrações, os livros seguem meus companheiros fieis. Até agora são 4, lidos com toda calma e deleite que eles merecem. As histórias inéditas, pelos menos para mim, criaram uma atmosfera interessante. Há amor, há medo, há um não saber e há esperança, dessas histórias levo aos meus dias. Que nem Anne Frank: a esperançar, a inventar! Como o Carteiro, apostando no amor desconhecido, que mesmo assim vale a pena. Junto do narrador da história de Macabea: apostando nas palavras e no peso que elas conferem a vida. E percorrendo esse caminho como que em um mistério, que envolve a gente e que no final se mostra como algo menor do que imaginávamos.
Talvez haja páscoa sim, afinal tal palavra quer dizer passagem, travessia. E se há algo que constantemente somos convocados a fazer nesses dias é atravessar! Atravessar o mal-estar e criar, ou melhor sustentar. E quando falo em sustentar vejo que sou surpreendido constantemente por meus amigos e por mim, os atletas seguem sustentando esse desejo como podem, os leitores fazendo viagens sem sair de casa, alguns sustentando aquilo que julgavam insustentável: o online! Tarefa difícil, contudo, necessária nesses dias onde a distância dos corpos se faz necessária. E nesse mundo online muita coisa pode se inscrever e principalmente se escrever.
Como disse, há amor, vemos isso todos os dias em suas mais diversas manifestações. Mas há amor também onde eu pensava que nem existiria, há amor que segue sendo amor mesmo depois que acaba (assista História de um casamento, você vai me entender), há amor que se faz páscoa e há amor pra recomeçar. Ele ainda é uma saída, não duvido disso e nem estou romantizando: há amor nas coisas, nas atividades, nas pessoas, nos enlaces e também nos desenlaces e há amor no tempo.
E parece que tempo é a questão mor desses dias. Aprendi que tinha várias coisas que eu não fazia com justificativa de falta de tempo, que agora seguem sem serem feitas. Parece que quanto mais tempo temos, menos realmente o temos. Me pergunto o que foi feito com o tempo de compreender, visto que toda hora de tempo há uma informação nova. às vezes não acontece esse tempo de compreender e só nos resta concluir, não sem consequências.
São tempos difíceis, meu amigo, são tempos cruéis eu diria. Mas ainda são tempos possíveis, ainda há que se esperançar como Anne Frank um dia fez! Me pergunto se a esperança é capaz de furar ou nomear o mal-estar, ainda não sei. Talvez quem sabe depois do tempo de concluir?
E no tempo que virá de uma coisa eu sei: nada será como era antes! E espero que não o seja mesmo, o que era antes não fazia tão bem e precisava de tempo para modificação.
Acho que já estou me delongando demais e depressa demais aqui, tenho tentado ser um Mr. Brightside, apesar de que isso não é muito do meu feitio. Ser Brightside para quando chegar a hora, poder abrir meus olhos ansiosos e ver que a páscoa finalmente se inscreveu e a vida poderá seguir, não como era antes!
Com o afeto de sempre,

 P.

Ps.: Esse post foi escrito com o incentivo/apoio e correções da querida Nádia. Amiga, gratidão!

Comentários

  1. Brilhante! Que pontinha de esperança brota em meu peito ao te ler! Obrigada por isso! Obrigada por tudo!

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    Respostas
    1. Amiga, eu que gradeço a leitura, o carinho e principalmente o apoio para escrever! Que sigamos!

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